12 de jul de 2014

Aldeir Torres - Copa do mundo 2014 no Brasil.

O tacanho ódio que devemos ter dos argentinos


A Argentina está na final e já é o time a ser odiado. Não podemos organizar uma Copa para que os nossos vizinhos vençam. A rivalidade futebolística entre nós e eles já foi mais forte, nos tempos que jogavam Libertadores com pedras na mão, estádios acanhados, poucas imagens. O famoso “onde o filho chora e a mãe não vê”. Mas hoje os brasileiros, via de regra, dominam a Libertadores, os argentinos têm indiscutivelmente o melhor jogador em atividade entre os dois países. Não há muito o que se discutir. Não há porque alimentar algo tão tacanho. Ainda assim eles precisam nos odiar e nós precisamos odiá-los. Por quê? Talvez porque ontem foi assim e anteontem também foi e antes de anteontem também. Sendo assim amanhã e depois de amanhã deverá ser igual. O curioso são as justificativas para alimentar o sentimento. Ouvi algumas explicações durante a Copa porque eu, sinceramente, nunca encontrei um motivo para gostar menos dos argentinos do que do meu vizinho do 74 ou de alguns brasileiros.


Uns dizem que em Buenos Aires receberam dinheiro falso de taxistas. Isso não se passou comigo quando estive na capital argentina, mas pode sim ter ocorrido com outros. Assim como um amigo espanhol foi enganado na rodoviária do Tietê por um taxista brasileiro que cobrou o dobro até o destino. Tem também a justificativa da música cantada em campos brasileiros, lembrando uma Copa que eles não ganharam, que nos deram uma água estranha e dizem que Maradona é maior do que Pelé. Realmente nenhuma torcida brasileira jamais ousou fazer uma música provocativa a um rival, mesmo que este tivesse mais títulos. Por tanto é uma afronta e merecemos odiá-los por isso. E também nunca fomos malandros em campo, até hoje só vencemos na bola e nada mais. Os jogadores cantarem a música no vestiário é motivo para espumarmos de ódio. O tuíte de Robinho para os espanhóis ou os jogadores brasileiros imitando a mordida de Luís Suárez soa como ‘espirituosa brincadeira’. Assisti dois jogos da Argentina no estádio na Copa do Mundo. Vi que foram provocados na mesma medida que provocaram. Algumas vezes eles começavam, outras vezes eles respondiam aos brasileiros. Era impossível apontar um certo e um errado. No mais, existem argentinos idiotas que chamam brasileiros de macacos, mas isso nós mesmos fazemos em momentos de fúria expondo nosso racismo que fica escondido esperando uma oportunidade. Chamamos Zuñiga de macaco na internet, o árbitro Marcio Chagas no Rio Grande do Sul ou Arouca no interior de São Paulo. Somos iguais a argentinos e aos outros. Temos também a nossa parcela de idiotas que dissemina esse tipo de coisa.


Entendo que o futebol precise de rivalidades. É ótimo ter os argentinos como nossos maiores adversários. Seria ainda melhor se os clubes de lá não estivessem em crise e em apenas alguns momentos nos últimos anos conseguissem rivalizar com os brasileiros. Mas não consigo entender a campanha para que os odiemos. Certamente na Argentina deve haver o mesmo em relação ao ódio aos brasileiros. Não entendo principalmente como a mídia tenta alimentar o ódio, extrapolando uma disputa desportiva. Matérias mostram argentinos como prepotentes, pessoas que não podemos gostar, uma raça que nos inferioriza e provoca. NA TV fala-se abertamente em “não gostar de argentinos” como se fosse uma declaração normal. Os elogiam de má vontade, como se fossem obrigados a mostrar algo que muito os contraria. Até um vudu de Messi foi feito. A publicidade aposta alto em mostrar argentinos sendo desmoralizados por brasileiros no bar, nos estádios ou em qualquer lugar. Os comerciais mostram como é legal passá-los para trás, enganá-los e rir da cara de nossos vizinhos. Tudo visto de forma natural porque os brasileiros se saem bem. Um comercial parecido feito na Argentina e que circulasse na internet no Brasil teria, certamente, conotação bem diferente. Ninguém precisa torcer para a Argentina vencer a Copa do Mundo, mas ninguém precisa se sentir obrigado a torcer contra também. É normal que os nossos maiores rivais não tenham a torcida brasileira, mas não sei porquê é preciso querer destruí-los. De tudo que vi até hoje tenho os mesmos motivos para odiar argentinos que tenho para odiar brasileiros. Não consigo vê-los muito diferentes de nós. Só consigo ver que se tenta vender que nós estamos sempre certos e eles sempre errados. No futebol e na vida.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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