15 de jul de 2014

Aldeir Torres - Seleção brasileira.

Como se escolhe o novo técnico da seleção?


Felipão deixou a seleção na calada da noite de domingo e agora é preparada a sucessão, possivelmente com um estrangeiro. O que o torcedor menos atento não pode pensar é que Felipão chegou ou saiu por convicção dos dirigentes da CBF ou que o próximo a chegar será contratado por base no que ele pode fazer pela seleção brasileira. Em um meio tão político como o comando do futebol brasileiro o que se procura é alguém que possa servir mais de escudo que de técnico. Após a goleada para a Alemanha, Scolari falou na terça, quarta, sexta-feira e no sábado depois de perder da Holanda. Por mais que não tenha explicado da forma com que gostaríamos e ter mostrado ter limitação de compreensão do que se passou, Felipão deu a cara a tapa. Assim como Carlos Alberto Parreira e sua lúdica leitura de e-mail de dona Lúcia. Entre tantas explicações da comissão técnica falou Neymar, por mais de 40 minutos. E o camisa 10 da seleção ainda foi para o jogo em Brasília para ser aplaudido e evitar vaias aos demais. Todos se expuseram. Apareceram para serem apedrejados ou aclamados enquanto as pessoas que tomam decisões na CBF não se pronunciaram. Caso o Brasil tivesse sido campeão, José Maria Marín teria feito discursos inflamados exaltando a direção da confederação e seu planejamento. Mas quando Parreira e Felipão foram escolhidos, os dois últimos campeões mundiais, Marín escolhia alguém para se defender. Na derrota os culpados seriam eles, na vitória os louros seriam de todos.


Entre a derrota para a Alemanha e a não renovação de contrato de Scolari chegou-se a cogitar a notícia nos bastidores que a comissão poderia ser mantida. Tentativa de Marín de sentir a repercussão que isso traria? Possivelmente. Com tantas críticas a Felipão na mídia e redes sociais, o presidente da CBF percebeu que o técnico do penta poderia ser maléfico e já não era mais o escudo necessário. Logo, merece ser descartado em uma madrugada de domingo enquanto a Copa ia embora. Agora se fala na possibilidade de um estrangeiro. Não que a CBF pense que seja a solução porque até pouco tempo não cogitava. Mas ao olhar para o mercado e ver Pep Guardiola com contrato com o Bayern de Munique até 2016, Mourinho no Chelsea até 2017, Ancelotti que acabou de ganhar a Liga dos Campeões em seu primeiro ano no Real Madrid, Jupp Heynckes aposentado (campeão de tudo com o Bayern até 2013, duvido que o presidente da CBF saiba quem seja), Marcelo Bielsa acabando de assumir o Olympique de Marselha… faltam nomes. Ou pelo menos grandes nomes. Grifes incontestáveis. Um grande escudo. Jorge Sampaoli, argentino que treinou o Chile, poderia ser uma opção porque é bom técnico, mas não é um grande escudo. Assim como Tata Martino, Manuel Pelegrini ou José Pekerman. Jurgen Klopp, técnico do Borussia Dortmund, que ousou incomodar o Bayern nos últimos anos, não é conhecido pelo grande público e não fala nada próximo ao português. É muito bom treinador, mas não tem o que a CBF precisa. Não serve de proteção aos dirigentes. A escolha de um novo técnico da seleção não precisa acontecer nas próximas semanas, até porque só se joga o próximo amistoso em setembro. Mas José Maria Marín e Marco Polo del Nero sabem que quanto antes se protegerem, e bem, das críticas e tirarem os holofotes deles, melhor.


Mais importante que mudar o técnico da seleção seria repensar porque temos poucas opções no Brasil. Qual o motivo dos treinadores de nossos clubes parecerem ser incapazes? São ruins e atrasados porque se fecham na bolha do futebol brasileiro com altos salários e uma dança de cadeiras que os garante um posto em pouco tempo? Ou o risco de demissão a cada duas derrotas os fazem jogar sempre por um resultado que mantenha o emprego em vez de se ousar jogar futebol? Em 2013, por exemplo, Dorival Júnior começou o ano no Flamengo, foi para o Vasco e finalizou no Fluminense. Isso não pode ser bom para Dorival e com certeza não é para o futebol. No início de 2014 Sidnei Moraes foi demitido da Ponte Preta depois dos três primeiros jogos do campeonato paulista. E com uma vitória e duas derrotas. A CBF deveria estar mais interessada em resolver esse tipo de problema. Em entender o que acontece com nossos treinadores e porque eles não se desenvolvem. A CBF tinha que se perguntar porque o técnico do atlético de  Madrid é argentino, o do Barcelona era argentino, o do Valencia também, o do Manchester City é chileno, o da seleção colombiana e chilena eram argentinos.

Por quê tirando uma ida de Luxemburgo ao Real Madrid ou alguns meses de Leonardo na Inter de Milão não temos nenhum treinador em clubes de ponta ou até clubes médios do futebol mundial? E não vale falar em barreira de idioma porque Mourinho tem o português como língua nativa e trabalhou na Espanha, Itália e Inglaterra. Guardiola, espanhol, fala alemão e Pelegrini, chileno, foi campeão na Inglaterra. José Maria Marín não quer saber isso. Quem comanda o futebol brasileiro não se importa com ele. Isso é conversa de jornalista e de jogadores do Bom Senso e nada mais. Quem tem a caneta em mãos para tomar as decisões só quer saber como vai ficar mais e mais tempo comendo e bebendo muito bem, viajando de primeira classe e tirando foto se aproveitando da publicidade de alguém para satisfazer vaidades pessoais. Por isso, seja quando Felipão chega, Felipão sai, se fala em Guardiola ou se telefona para Tite, não se quer saber o que será do futebol brasileiro. Isso nós queremos. Eles querem só um bom escudo para se proteger e poder se aproveitar do resto.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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