22 de jul de 2014

Aldeir Torres - Dunga:

Meio moderno, meio medroso


Entre auto comparação com Nelson Mandela, memória ruim ao dizer que saiu do Internacional na quinta colocação (era 10º), troca de James Rodriguez por Gimenez e citações a Enrico (Arrigo) Sacchi, Dunga falou por quase uma hora como novo técnico da seleção. Foi apresentado por José Maria Marín, que foi chamado de estadista. Atos falhos e absurdos à parte, a entrevista de Dunga foi, na minha visão, menos caótica do que alguns viram. Dunga inverteu o discurso ufanista de Carlos Alberto Parreira e Luís Felipe Scolari. Falou sobre não vender o sonho, ter humildade para saber que só a camisa do Brasil não vai ganhar jogos. Falou sobre a necessidade de trabalhar um time para que os jogadores brilhem. Bem diferente da equipe que se apoiava em Neymar e torcia para que fosse o bastante.


Dunga não deve ser responsabilizado pela pobreza do futebol brasileiro. Os jogos com mais de 100 passes errados, 50 faltas, chutões e trombadas para todos os lados é um problema do futebol nacional e não da seleção nacional. Mas é de responsabilidade do treinador da seleção colocar em campo um time que jogue o futebol que as pessoas querem ver. Claro que no fim das contas todos querem resultados, mas como chegar até ele vale ser questionado. E ele falou que a arte no futebol é também uma defesa do goleiro ou o desarme de um zagueiro. E que no futebol moderno todos marcam. O problema é que isso é só metade do caminho. Marcar, desarmar, defender faz parte do “trabalho sujo” necessário também aos bons times. Não é mentira. Organizar um time ofensivamente é muito mais difícil e por isso poucos times conseguem faze-lo bem. Na Copa do Mundo, Alemanha, Chile, Espanha e Itália queriam jogar com a bola, construindo mais que destruindo. Em clubes, o Liverpool ficou a dois pontos do título inglês com um time de contra-ataque. O Atlético de Madrid, campeão espanhol, teve menos posse de bola que oito times na competição. 

O Real Madrid ganhou a Copa do Rei em cima do Barcelona e passou pelo Bayern de Munique na Liga dos Campeões jogando em contragolpes.
Para onde se olha, se vê times modernos que preferem marcar primeiro para jogar depois e são bem sucedidos assim. E não há nada de errado nisso. Só que o moderno faz bem as duas coisas e quando precisam atacar também sabem fazê-lo. Nem Holanda, nem Real Madrid ou Liverpool jogam para vencer a qualquer custo, da forma mais tosca possível se for necessário. Nem cito o futebol moderno de Barcelona, Bayern de Munique, Espanha e Alemanha que querem jogar bem, querem dominar e controlar os adversários e são os times que mais influenciam, mais são estudados e são os maiores vencedores mundiais da última década. Com o material humano que tem – e poderia ter ainda mais se trabalhasse bem formação e transição de jogadores – o Brasil poderia se espelhar nos times de Guardiola, mas, para ficar no moderno, olhará mais para Mourinho.


A seleção brasileira pode ser competitiva com Dunga porque pode se defender bem e individualmente tem jogadores que podem resolver os jogos. Por enquanto analisamos as ideias que ficam de uma entrevista e vamos esperar para ver em campo, mas pelo discurso duvido que será um time que atrairá olhares e paixões. Pode ser meio moderno, desarmar bem e contra-atacar em velocidade. Mais ou menos parecido com o que alguns fazem. Mas pode ser meio medroso também. Sem coragem para fazer a parte mais difícil do jogo. Não irá influenciar positivamente outros técnicos no Brasil e muito menos fora daqui. Poderemos ganhar ou perder, mas acho que dificilmente vamos gostar.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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