10 de jul de 2014

Aldeir Torres - A aula de Guardiola:

“tentamos o mesmo dos jornalistas: decifrar o jogo”


Se na última terça-feira o Brasil levou uma surra que pode servir de lição para as pessoas que comandam nosso futebol, no final de junho outra aula foi dada e que também poderia muito bem nos ajudar. Pep Guardiola foi à Buenos Aires falar de futebol para um ginásio lotado por uma hora e meia. Também participou o ex-técnico do Barcelona Gerardo Tata Martino. Pep falou sobre conceitos. Essa coisa que parece não fazer o menor sentido em um futebol intuitivo e primitivo como é o brasileiro.


Veja abaixo os principais pontos abordados pelo treinador que tem dezessete (17) títulos dentre os vinte e quatro (24) que disputou em cinco anos de carreira.

Qual o melhor esquema de jogo:


O melhor esquema é o que vence e nada mais. Nós, treinadores, queremos seguir empregados e sem resultados isso é impossível. O resultado serve para te dar tempo. É importante no início passar para o jogador o que você quer fazer e como quer fazer.


Como convencer os jogadores a cumprir as orientações:

É preciso dizer a eles ‘se você fizer isso, será bom para você’. O jogador quer jogar bem, quer ser protagonista e você deve convencê-lo de que ele será. Del Bosque disse muito bem ‘nós pensamos em todos e eles só pensam neles próprios’. É preciso mostrar aos jogadores que a equipe precisa de uma coisa e que eles são parte disso. Quem será protagonista é secundário. É fundamental que cada um saiba o seu trabalho, nem todos podem ser Messi.

E como entender o jogador:

Há que entender cada um pela sua capacidade de raciocínio. Atletas de um nível tão alto como os que eu trabalhei, é difícil entender até porque eu nunca tive esse nível. A maior idiotice que um treinador pode ter é pensar que ele tem que falar para os jogadores o que eles devem fazer. isso é intuitivo.

Por que hoje saem tantos gols de contra-ataque:

Porque é muito mais difícil atacar do que contra-atacar. Posicionar sete, oito jogadores no campo de ataque não é fácil. É complicado dizer a um jogador que quer ser protagonista que ele deve ficar parado e esperar e que vai ficar três minutos sem tocar na bola. Organizar o ataque é muito mais difícil. Mas todas as formas são válidas, nós treinadores pensamos que todos têm boas ideias, mas que as nossas são sempre melhores.

Qual é a melhor coisa que o técnico pode fazer em campo:

Quando eu era jogador só pedia ao treinador que me antecipasse o máximo que ia acontecer numa partida. É isso que tento fazer. Antecipar as situações que vão acontecer para que eles não se surpreendam. Há alguns anos não havia imagem dos jogos então tudo era estudado e passado somente pela palavra. Hoje a imagem é um mecanismo imparável. Creio que a maioria dos técnicos as utilize.


Onde aprendeu a dar valor à vitória:

Aprendi no Brescia que cada vitória era como ganhar uma Liga dos Campeões. Estava acostumado com o Barcelona (enquanto jogador) em que se ganha sempre e fui para um time pequeno, em uma cidade pequena. Lutávamos para não sermos rebaixados e ganhar sempre nos custava muito.

Messi:


Messi talvez seja melhor agora do que antes. Cada experiência que um atleta tem o faz melhor. Eu não sou mais o mesmo treinador de seis anos atrás. Assim como ele. É diferente. Nem melhor, nem pior. Eu tenho impressão que Messi não toma decisões erradas. Na ponta se participa menos do jogo que no centro e queria que Messi participasse o máximo possível. Essa foi a ideia principal quando decidi mudar sua posição. Nem a todos jogadores se pode dar essa liberdade porque alguns se bloqueiam se você os diz que podem fazer qualquer coisa no campo.

Mascherano:


Mascherano é um jogador quase perfeito e que eu gostaria de ter quase sempre. Sempre consegue entender. Ele nunca exigiu nada por ser capitão da Argentina e às vezes não jogar. Às vezes os jogadores nos tratam como se nós os devêssemos algo. Gosto muito dos pontas que podem ser laterais e dos meio-campistas que podem ser zagueiros e ele fez isso muito bem.

Táticas e números:

O que nós treinadores tentamos fazer é o mesmo que os jornalistas: decifrar o jogo. O torcedor vê de um ponto-de-vista mais emotivo. Mas quando encontro um técnico o que mais quero é falar de tática. Sem isso seria impossível entender o futebol. O Barcelona é um clube que tem como cultura se falar muito de porque ganhamos ou porque perdemos. Lá tentamos entender o jogo.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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