2 de set de 2013

Aldeir Tôrres - Terapia

As larvas que ajudam diabéticos
Quando se fala em “tapurus”, o nome popular das larvas, é normal uma reação de arrepios e asco no interlocutor. Ou leitor. O que não se imagina é que esses pequenos seres rastejantes sejam parte importante nos recentes avanços nacionais da medicina, que tiveram seu bem sucedido início no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal. As larvas de mosca varejeira fazem parte de um processo médico chamado desbridamento biológico, um tratamento revolucionário nos ferimentos de pacientes diabéticos.

O desbridamento é a remoção de tecidos necrosados aderidos ou de corpos estranhos no leito da ferida, usando técnicas mecânicas, químicas ou, no caso das larvas, biológicas. O processo consiste na aplicação das larvas de mosca varejeira no ferimento do paciente. Essas larvas tem característica necrófaga (alimentam-se de organismos mortos) e, por isso, direcionam-se às partes necrosadas do ferimento, consumindo-as e abrindo espaço para que o tecido saudável possa crescer.

A enfermeira Julianny Barreto, 50, é a responsável pelo tratamento nos pacientes do Hospital Universitário e explica que essa é uma técnica milenar: “Esse tipo de desbridamento é muito utilizado na Alemanha e Reino unido. Os próprios Estados Unidos exportam uma espécie de mosca para todo mundo”.

Apesar de ser muito difundido no exterior, os primeiros registros brasileiros desse tipo de tratamento em seres humanos foi no hospital mantido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. “Claro que tivemos que passar pela aprovação do comitê de ética do hospital, por estar usando um ‘ser vivo’ no tratamento dos pacientes. Depois da aprovação só temos tido resultados positivos”, explica a enfermeira, cujo trabalho tem sido elogiado por outros profissionais do Brasil. “Inclusive um hospital do Paraná entrou em contato conosco em busca de auxílio”, destaca.
O paciente Francisco Pereira da Silva, 70, é só elogios quanto à terapia. O aposentado, que estava passando por sua segunda aplicação larval, tem o calcâneo (osso do calcanhar) amputado e uma ferida profunda na sola do pé esquerdo, decorrente da diabetes. “Agora está maravilhoso! Não paro mais nunca! Quando eu tinha que passar por procedimentos cirúrgicos sentia muita dor. Agora só um ‘friviar’”, relata Francisco.

A enfermeira Julianny explica que o fervilhar que o paciente sente são as larvas passeando no ferimento, à procura de áreas necrosadas para sua alimentação. “Essa movimentação faz com que a área seja estimulada e surja um tecido de granulação, que recupera a região ferida”, conta.

O pé de seu Francisco já apresentava resultados bastante positivos, mesmo com apenas uma aplicação. “A tendência é que, com aproximadamente cinco aplicações, um paciente com um ferimento deste porte possa se recuperar”. A segunda aplicação foi rápida, não passando de dez minutos, no total e Francisco Pereira não demonstrou nenhum sinal de dor. Ao fim da colocação das larvas, era possível observá-las caminhando pelo ferimento. “Quando a gente retira as larvas, 48 horas depois, elas estão bem gordinhas”, explica Julianny, enquanto executa o procedimento no paciente.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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