16 de set de 2013

Aldeir Tôrres - Centro de Pesquisa da Unesp

Dá-lhe cachaça 

Pinguço, pau-d’água, ébrio, chumbado, beberrão. A língua portuguesa é riquíssima em adjetivos para designar aquele amigo que é, digamos, dado aos prazeres do álcool. Bebaço, bebum, biriteiro, borracho, caneado, xumbregado e por aí vai. Dá até para fazer poesia. Mas, poucos sabem, por trás da cachaça também há ciência, e os adeptos da cultura etílica devem se animar com a novidade: pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, desenvolveram uma nova bebida alcoólica que promete conquistar paladares – é a aguardente de licor de laranja.

Após uma década de estudos, o químico João Bosco Faria, do Centro de Pesquisa da Cachaça, da Unesp, mostrou que é perfeitamente viável elaborar uma bebida aproveitando rejeitos da produção de suco de laranja (o bagaço da fruta) e de cerveja (a levedura). “São duas indústrias nacionais com grande volume de produção; e o aproveitamento desses descartes é vantajoso do ponto de vista mercadológico e elogiável do ponto de vista ambiental”, diz Faria.

A receita do novo produto é segredo – devidamente patenteado pela Unesp. Mas, em linhas gerais, não foge muito do convencional. Primeiro, o bagaço é prensado. Dele obtém-se um líquido, tecnicamente chamado de licor de laranja, do qual será feita a aguardente. Esse licor é armazenado em tanques metálicos e, em seguida, fermentado com as leveduras reaproveitadas da indústria cervejeira. “A levedura é o microrganismo que transforma o açúcar em álcool”, explica o químico.

O próximo passo é a destilação. E, na sequência, a bebida é envelhecida em tonéis de carvalho. “Para aguardentes em geral, o período mínimo de envelhecimento deve ser de dois a três anos”, revela. “O produto envelhecido fica mais encorpado, com uma textura diferenciada, pois a madeira retém algumas substâncias do destilado e libera outras de sua estrutura, favorecendo a formação de compostos que dão sabor à bebida.”

Mas seria mesmo a tal aguardente, feita com resíduos industriais, saborosa? “Sem dúvida”, garante Faria. Testes sensoriais conduzidos ao longo dos últimos anos confirmam sua aprovação. A ideia é que tanto pequenos produtores quanto grandes indústrias possam se beneficiar do processo desenvolvido na Unesp.

O químico estima em três anos o tempo para que o novo goró chegue ao mercado nacional. E ambiciona: “É crescente a demanda por exportações”. A propósito, o Brasil produz hoje cerca de 1,3 bilhão de litros anuais de cachaça. “Não mais que 1% é exportado; ou seja, bebemos quase tudo por aqui mesmo”, brinca Faria. “Se pudéssemos aproveitar todo o volume de rejeito das indústrias de suco e de cerveja, poderíamos quase dobrar a produção nacional de aguardente”, estima o pesquisador.
Aldeir Torres
Aldeir Torres

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